algumas "séries" de obras

Complementação (da série Quebra-cabeças), 2005
Terracota carbonizada, madeira pintada
Dimensões variáveis

Coleção Particular, João Pessoa
foto Rosilda Sá


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Sem título (da série Pinhas), 1997
Terracota engobada, pregos e grampos
38 x 24 x 25 cm

Coleção da artista
foto Jeans Beuthler





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Sem título (da série Orgânicos), 1994
Terracota engobada, grampos, pregos e arames
27 cm (diâmetro)

Coleção Galeria LGC Arte, Rio de Janeiro
foto Roberto Coura



ESCULTURAS EM CERÂMICA E FERRO (*)

Com a experiência de treze anos de trabalho em cerâmica, Rosilda Sá vem se dedicando, atualmente, a um embate peculiar que consiste em testar os limites de resistência da argila a elementos estranhos à sua natureza. É neste limiar que se processa, agora, a longa experiência desta artista e que se constituem as questões colocadas por seu trabalho.

Testar limites de resistência pressupõe a possibilidade de sucesso ou fracasso. Com a cerâmica, este é um jogo de tudo ou nada. A tensão de operar com estes extremos implica, por um lado, na coragem de correr riscos e, por outro, na incorporação deste dado na própria qualificação da obra. Resulta daí um tipo de prazer que resgata um sentido mais profundo da arte como disponibilidade para o jogo, para o vago, o indefinido, ou seja, da arte como uma maneira refinada de brincar e formar. Desta maneira, recupera-se, também, o fazer enquanto invenção, pois, não se trata aqui de um jogo/produção que se constitui segundo regras dadas a priori. A matéria formada não é a realização de um projeto ou a execução do já ideado, mas um fazer que enquanto faz, inventa o por fazer, materializa o objeto singular e o sentido original ao integrar o aspecto realizador ao aspecto inventivo. A obra concebe-se, assim, executando, inventando e, ainda, incorporando o que neste trajeto aparece, em princípio, como arbitrário. A obra é, portanto, um ser formado, organismo autônomo e construção racional capaz de estabelecer novas correspondências.

Deste modo, os objetos/esculturas de Rosilda Sá apresentam-se como produto da tensão de um procedimento que assume o vago, a dúvida, o risco e, ao mesmo tempo, luta pela superação do fracasso, da negatividade. Estas inflexões operativas acabam por refletir, inversamente, uma positividade e o orgulho pela resistência/existência: a possibilidade tornada matéria concreta é afirmativa do seu sentido. Por outro lado, a tensão deste processo que joga com possibilidades extremas desdobra-se numa qualidade dramática que não elimina o prazer, a graça e a ironia como elementos do jogo.

O percurso/estratégia de Rosilda Sá começa pela projeção de uma certa força vital primitiva desencadeada pela própria natureza da técnica de modelagem da argila. Trata-se de uma etapa de pura artesania na qual a massa maleável obedece, dócil, à ação inteligente da artista e que evoca, coerentemente, formas orgânicas ou arcaicas. A esta gestualidade inicial, direta e vigorosa, opõe-se o contraste provocado pela incorporação de peças e pedaços de ferro. São refugos corroídos pelo tempo e pelo uso. A pintura da argila, à base de óxidos e corantes, articula, com tons e textura envelhecidos, a passagem entre a modelagem espontânea do primeiro momento do trabalho e a montagem pesada deste segundo momento.

Com os objetos de ferro, ao contrário da cerâmica que se faz moldando, segue-se um método que se opera escolhendo e desbastando. É um tipo de produção que constrói, não por associações fortuitas, mas por uma inteligência seletiva que relaciona o ato de colecionar e o ato de montar. Resistindo à sedução formal que satisfaz apenas os sentidos e aí se esgota, Rosilda Sá amplia seu discurso plástico ao criar com este novo elemento um contraponto, um obstáculo mesmo a pura fruição sensível. Alcança-se, assim, o patamar de uma lógica formal mais consistente que apela para o olhar reflexivo.

O enfrentamento entre métodos e materiais aparentemente incompatíveis remete a um confronto mais amplo entre as forças dos modelos originais - das leituras diretas da natureza - e as forças dos modelos virtuais, dos atalhos da experiência que constituem o âmbito inexorável do universo da cultura. Delineia-se, assim, o campo problemático no qual a obra de Rosilda Sá opera seus embates formais. Cada obra aponta um resultado diferente para este embate, uma acomodação específica entre forças divergentes sem eliminar, no entanto, a ambigüidade estrutural que permeia toda obra de arte. Deste modo, as diversas leituras possíveis não esgotam o sentido do trabalho já que a sua semântica está incorporada ao gesto formativo, ao modo sempre renovado de resolver cada obra. Resolução esta que aponta, em última instância, para uma tentativa de reconciliar dualidades humanas ontológicas.


Sylvia Ribeiro Coutinho


(*) texto publicado no catálogo da exposição individual, Galeria Sérgio Porto, Rio de Janeiro, 1996

© Todos os direitos reservados.



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Sem título (da série Orgânicos), 1992
Terracota engobada, pregos e parafusos
33 cm (diâmetro)

Coleção particular, João pessoa
foto Roberto Coura


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