entrevista

RELAÇÕES, CONEXÕES, VÍNCULOS: amplexos
Dyógenes Chaves – Parece-nos que ser artista tem a ver com uma espécie de obstinação e fascinação permanente. Qual é o papel desta fascinação, num sistema de compensações que leva um indivíduo a sobreviver do seu sustento e realizar seu sonho?

Rosilda Sá – O artista vive em permanente estado de processo, um contínuo de pesquisa, de trabalho. Artista é aquele de espírito inquieto, mas, sobretudo, aquele que se mantém sintonizado com seu tempo. O filósofo Gaston Bachelard, no livro O Direito de Sonhar (1994), ao falar sobre o artista, diz: “Em sua vida chega a hora em que o trabalho domina e conduz sua destinação. As infelicidades e as dúvidas podem atormentá-lo por muito tempo. [...]. Mas a vontade de obra não se extingue desde que ela encontrou uma vez seu verdadeiro foco. Começa então o destino de trabalho.” (p.31).

Parece-me que esse “destino de trabalho” sentenciado por Bachelard alimenta a “fascinação” e a “obstinação” que você coloca. E entendo que essa “vontade de obra” dita por ele talvez possa ser explicada pelo desejo que o artista tem em passar pela vida deixando uma marca, deixando algo de significativo – de que viver não foi em vão. Assim, ele burla a morte, porque sua obra – a arte – está ligada ao infinito, tem vida própria.

O desenvolvimento de um artista é um processo complexo e imprevisível; certamente por isso, nem todos conseguem atingir a maturidade artística. Creio que este é o grande sonho de qualquer artista; no entanto, produzir uma obra madura, especialmente inserida no contexto da arte contemporânea, não quer dizer mercado garantido a ponto de se conseguir “sobreviver do seu sustento”. São muitos exemplos de artistas contemporâneos que produzem obras consistentes, estão inseridos no circuito oficial, mas precisam se envolver em outro tipo de trabalho para se manter e até subsidiar suas produções artísticas.

Ter uma excelente articulação, uma excelente obra reconhecida por curadores e críticos, estar inserido no circuito oficial nacional e internacional, ter mercado e patrocinadores garantidos, tudo isso é a química perfeita. Só que agora passamos a falar da administração da carreira artística e do trânsito político em torno do jogo de relações sistêmicas que mantêm a arte...

DC – Apesar de existir há tempo, a arte conceitual parece algo só da contemporaneidade. Isso desperta ainda grande interesse por instalações, performances e obras conceituais. Você acha que há espaço para “arte tradicional”?

RS - Quando você fala em “arte tradicional” é pertinente conceituá-la, pois, determinadas técnicas são tradicionais, como a pintura, a escultura, a gravura, a cerâmica. Dependendo da qualidade da produção, serão obras inseridas no contexto da arte contemporânea. A arte popular, por exemplo, é tradicional, mas sabemos que ela faz parte do rol de fontes referenciais de artistas inseridos no contexto da norma culta.

No que diz respeito ao sistema cultural, ele é vivo, está em constante movimento, é vasto, é intrincado, pois abarca diferentes manifestações, significações e linguagens, todas desenvolvidas nos vários segmentos sociais. Parecem existir vários circuitos dentro do grande sistema, pois tudo o que é produzido é consumido, independente de sua qualidade. A arte produzida na cena contemporânea é reflexo do acúmulo e dos avanços históricos. Vários movimentos, ao longo da História da Arte, foram responsáveis por rupturas de parâmetros de categorização. O minimalismo e a arte pop na década de 1960, nos Estados Unidos, por exemplo, tiveram papel importante, pois desafiaram as classificações habituais. Muito antes dessa época, em 1917, quando Marcel Duchamp apresentou seu ready-made intitulado “Fonte”, a arte, como diz Roberta Smith, que escreveu sobre arte conceitual no livro Conceitos da Arte Moderna (1997), “nunca mais voltou a ser a mesma”. A autora explica que o fato de esta obra ter sido rejeitada ajudou a transformá-la na “quintessência da obra de arte ‘protoconceitual’” (p.182).

Na cena contemporânea, observa-se uma diluição de fronteiras entre as artes. As artes visuais interagem com outras linguagens – literatura, música, dança, teatro, cinema, design, etc. –, além de incorporar as novas tecnologias. Isto continua a desafiar a própria definição de arte. São diversas as formas de expressão, as propostas estéticas e as poéticas que utilizam não só a instalação e a performance como linguagens plásticas, mas a vídeo-instalação, vídeo-arte, site-specific, web-art, a instauração e muitas outras....


DC – Qual é o papel das instituições de ensino diante do artista contemporâneo? O que espera deste segmento?

RS - Creio que as instituições de ensino e a educação formal têm papel importante para o artista contemporâneo que pretende se aprofundar. A formação e a profissionalização geram, sobretudo, consciência na produção artística. Um excelente exemplo são as pesquisas em artes visuais vinculadas aos programas de pós-graduação, os quais se consolidam no Brasil, ainda que sejam poucos para atender a uma demanda crescente. A pesquisa sistemática, o processo de trabalho de cada artista, a articulação entre a prática e a reflexão, concomitantes à produção textual, se constitui no cerne da pós-graduação em linguagens ou poéticas visuais. Inúmeros outros programas de pós-graduação em diversas áreas do conhecimento são de fundamental importância para o campo teórico da arte.

Particularmente, desejo continuar seguindo pelo caminho acadêmico. Quero crer que, dentro de alguns anos, estes específicos programas de pós-graduação em artes visuais serão oferecidos através das universidades em muitos dos Estados do Brasil, democratizando, assim, o seu acesso.

DC – A arte hoje também é moeda corrente na economia globalizada e tratada como mercadoria. Haveria um modo para o artista entrar na indústria comercial sem o risco de perder sua identidade pessoal ou “marca registrada”?

RS - A questão da globalização e da produção em artes visuais é complexa; é, porém, primorosamente analisada, com principal enfoque ao Nordeste do Brasil, por Moacir dos Anjos no livro Local/Global: arte em transito (2005). O autor explica que o mundo contemporâneo tem sentido os efeitos da globalização e suas conseqüências nas áreas da economia, da política e da cultura, de modo que este se torna cada vez mais “poroso e interligado”. No campo das artes visuais, a despeito dos evidentes conflitos gerados pelas alterações nas “formas de representação visual de identidades e culturas”, ao se questionarem “normas discursivas eurocêntricas”, estaria a “exposição das diferenças” (p.10).

Considerando a produção em artes visuais no Nordeste do Brasil, sem a intenção de mapear, o autor menciona a obra de Marepe, Denílson Uchoa, José Patrício, Martinho Patrício e Efraim Almeida – os quais, por sinal, vêm consolidando carreiras artísticas destacadas – e defende:

A partir de memórias, materiais e procedimentos fincados em suas experiências reais e imaginadas de Nordeste [...], artistas visuais nordestinos, residentes ou não em suas terras natais, também têm esboçado maneiras próprias de lidar com o sombreamento dos limites arbitrários de sistemas de representação simbólica, criando discursos que continuamente trafegam entre os vários espaços e tempos em que são instados a viver na contemporaneidade. (pp.63-64).

Assim, fica claro que, diante dos trânsitos de influências no campo da cultura, os artistas não ficam passivos; são agentes significativos quando produzem obras originais, ou seja, quando adicionam “ao repertório simbólico do mundo algo que não existia ainda” (p.21). Portanto, algo novo.

DC – Fale de sua mais recente produção. O que é e o que pretende Amplexos?

RS - A exposição “Amplexos” foi realizada em outubro de 2005, no Centro Cultural de São Francisco, aqui em João Pessoa. Selecionada para o Projeto Artes Visuais, contou com a curadoria e texto crítico da Profa. Dra. Maria do Carmo Nino.

Derivado do latim, amplexo designa abraço. Conceitualmente, trata-se de um abraço espiritual, mítico, simbólico, que nos liga a todos e a tudo, numa malha infinita. Isto, porque a concepção desta exposição tratou das relações, conexões e vínculos entre o ser humano e a sua existência: os nexos com outros seres humanos e consigo mesmo, com o mundo e tudo o que ele contém, com o material e com o espiritual, enfim, com o universo das relações cotidianas do ser...

...Os aspectos conceitual e matérico das obras desta exposição evidenciaram as qualidades primitivas, essenciais e sensíveis da argila após a queima, ou seja, a terracota ou ela carbonizada. Sendo assim, as obras estavam impregnadas de simbolismos e energias.

A obra central da exposição foi a instalação “Nexos”, de dimensões variáveis, iniciada em 2004 e ainda em processo. Uma obra aberta que contou (e conta) com a participação de outras pessoas, inclusive no dia da abertura da exposição foi disponibilizada argila para que as pessoas deixassem seus nexos e levassem de presente outros. Então trocamos nexos. Convidar as pessoas a participarem da construção da obra é abraçá-las.

Formalmente são nós, elos, laços, entrelaçamentos, emaranhados, fios construídos de argila maleável e endurecidos após a queima. Fios de terracota, de arame, de cobre. Recentemente incorporamos, também, fios de outros materiais, que podem estar soltos, paralelos, cruzados e amarrados, porém, presos por pregos na parede. A obra foi montada na “Sala do Capítulo”, numa parede que parece uma espécie de nicho...

...Na outra sala, denominada “Corredor da Via Sacra”, estavam os objetos da série “Sublimação” e “Sem título” (2004-2005). A estas obras está presente o jogo que opera com extremos, desenvolvido como pesquisa plástica desde 1990, quando passei a associar a argila e o metal, observando o comportamento específico de cada material, suas complexidades, seus conceitos, numa espécie de síntese e ao mesmo tempo de embate entre eles. Nesta mesma sala, também estava montada a instalação “Sublimatórios”, de 2005, de dimensões variáveis, numa alusão à própria história da cerâmica ligada ao objeto utilitário e sua principal função de transformar, cozinhar, guardar alimentos. A obra apresentou objetos utilitários em terracota, de variadas formas e tamanhos, expostos de forma crescente sobre uma plataforma rústica coberta com argila, numa espécie de altar, de fogão ou de forno. Os fornos e o fogo vistos nas fotografias que fazem parte da obra pontuaram a etapa de sublimação da matéria, de transformação definitiva. Cada forma utilitária disposta lado a lado, formando um grande conjunto, atua como unidades de comunicação, de harmonia e convívio, expondo assim as dualidades: igualdade e diferença, pluralidade e singularidade.

A concepção da obra está ligada às minhas memórias e à imagem que, na adolescência, eu via semanalmente na feira livre de Casa Amarela, em Recife, onde eu a freqüentava com a minha mãe. A motivação para eu acompanhá-la não estava apenas em lhe fazer companhia ou ajudá-la, mas em poder estar próxima, em tocar e ver os objetos cerâmicos e a maneira como os vendedores arrumavam as peças no chão, separadas formalmente e por tamanhos, em conjuntos que me encantaram e ficaram gravados em minha mente.

As obras apresentadas não encerraram questões; muito pelo contrário, abriram novas possibilidades e direções para trabalhos futuros.

Desde que entrei em contato com a argila, em 1983, esta matéria e o universo cerâmico fazem parte do centro de minha pesquisa plástica, do meu processo poético. Como no fazer cerâmico, a vida inteira é um exercício contínuo de amadurecimento, numa espécie de modelagem, a modelagem da vida.
SÁ, Rosilda; CHAVES, Dyógenes. Relações, conexões, vínculos: amplexos. In: Segunda Pessoa. João Pessoa, Ano 2, n. 2, out-dez. 2007. Entrevista.
entrevista concedida à Dyógenes Chaves em 2005, publicada na Revista Segunda Pessoa, dez. 2007
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