amplexos - centro cultural de são francisco, joão pessoa


Sublimatórios, 2005
Objetos utilitários em terracota, tijolos, argila, areia, madeira, plástico, fotografias
Dimensões variáveis
Vista da instalação Centro Cultural de São Francisco, João Pessoa
foto Gustavo Moura
  • AMPLEXOS COMO PENSAMENTO SOBRE LIMITES (*)


Ao observar a obra recente da artista Rosilda Sá e verificando o farto material da sua já longa trajetória, imagino de imediato que uma das suas mais constantes motivações parece convergir para pensar a ambigüidade do entre, do meio, fato que, por extensão, ajuda-nos a pensar também: fendas e sobreposições, separações e uniões, quebras e encontros, espaços intermediários, granulações, anelações, articulações entre as formas, incrustações, associações de materiais funcionam nos seus trabalhos como uma maneira de refletir sobre a noção de limite...


...A obra vai então se dar nessa busca de equilíbrio e de oposição entre incisões, cortes, granulações, trabalho intenso sobre a argila, sugerindo ao mesmo tempo a manipulação refinada e experiente de uma matéria com consonâncias arcaicas e a inteligência e sofisticação das soluções formais e espirituais apresentadas por Rosilda...

...Seus objetos resistem à pura sedução formal dirigida apenas ao olhar, obrigando-nos a considerar na proposta final a dimensão sem a qual a arte não se dá: não sendo apenas criação de formas, mas principalmente de substâncias, convivendo em consonância, como é o caso para esta exposição, com o belo espaço do Centro Cultural de São Francisco...


Maria do Carmo Nino


(*) texto publicado no folder da exposição
© Todos os direitos reservados.
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“(...) Finalmente chego ao São Francisco, à exposição de Rosilda Sá. Uma volta ao tempo, às nossas origens mais remotas, imemoriais, não registradas nos anais leigos ou nos sagrados. Memórias da infância do mundo, quando os elementos ainda lutavam para se unir, para iludirem o caos primevo...

...Enquanto percorria a exposição, me ocorreu um pensamento: embora aquele templo seja consagrado a São Francisco, a tradição cristã nos diz que é Pedro a pedra fundamental da instituição original da cristandade. Ao levar seus “Amplexos” para o seio da Igreja, Rosilda empreende então uma viagem de volta às nossas origens cristãs, bíblicas, realizando um amplexo mítico preconizado no seu projeto artístico. E esta viagem está mais evidentemente epitomizada em pelo menos dois dos espaços da exposição: primeiro no espaço em que está abrigado “Nexos”, um arco, um nicho que outrora deve ter contido uma capela, um altar. Ao depositar ali os seus nós, Rosilda eleva sua arte ao nível do mítico, do simbólico...

...Em outro espaço, está erguida uma plataforma, uma espécie de altar, totalmente recoberto de objetos de cerâmica. Estão dispostos em tamanho crescente, desde os mais pequenos, aos mais avantajados. Nas paredes de fundo estão fixadas duas fotografias de fornos para queima cerâmica. De novo, o mítico se engendra. As peças que estão sobre esse “altar” são do tipo mais primitivo, aquelas pecinhas encontradas nas feiras, os jarrinhos, as quartinhas, as jarras, as gamelas de uso cotidiano, utilitário, lúdico ou infantil. Aqui Rosilda presta seu tributo ao artista anônimo, ao artesão, ao oleiro, figura também bíblica, que modela a argila da mesma forma que o Criador moldou a matéria inerte para produzir sua maior criação. Isso me remete, irremediavelmente, à humildade das nossas origens.

Saio da exposição de Rosilda bem mais humana. Demasiadamente humana, talvez, me lembrando que pertenço à uma espécie que volta, inevitavelmente, ao pó. (...)”


Maria das Vitórias de Lima Rocha
curadoria maria do carmo nino

montagem da exposição ivanildo oliveira, rosilda sá e josé domingos de medeiros (pedreiro)

oleiros valdecy mendes de freitas e josé antonio bizerra

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